(texto da professora Aline Pereira)

Generoso, trabalhador e contra a lei, por Aline Pereira*

Filhos que não atendam aos padrões sociais de qualidade geram dramas. Existe o que chega aos 30 sem casar, o gay, o separado, aquele que não quer ir à igreja e, o exemplo de maior risco para uma real inadequação social, o filho usuário de drogas. Não seriam certos dramas familiares exacerbados por cobranças fundamentadas em padrões sociais de repetição?

Ter filho gay, por exemplo, vai do entendimento da família considerar ou não a preferência sexual um erro. A disposição em aceitar a voz da ciência poderá acalentar, já que estudos explicam a homossexualidade por meio de critérios genéticos, biológicos e endócrinos, reconhecendo que já no ventre materno a preferência sexual é gerada.

Sem contestação é o drama das famílias convivendo com usuários de entorpecentes que podem estimular à violência e impossibilitar funções nos meios de produção. Vale lembrar que uma das drogas que conduzem a tal comportamento é lícita: o álcool. Entretanto, se seu filho bebe socialmente, é generoso e trabalhador, não há problemas. E se for generoso, trabalhador e usar maconha? É diferente porque é contra a lei, compreensível, mas especialmente porque há desinformação.

O espaço é curto, portanto indico como leitura a argumentação favorável à legalização da maconha de FHC e Fernando Gabeira que dimensionam racionalmente a questão sem apologia. Historicamente, a proibição atende a critérios econômicos e até étnicos nem sempre divulgados. Existe criminalização de uma conduta que estaria dentro dos limites da liberdade individual, já que a maconha não determina violência, aliás, diminui taxas de testosterona. Já a violência produzida pelo tráfico fere a liberdade coletiva. A informação também evitaria internação de gente produtiva em clínicas de reabilitação mercenárias.

Drogas trazem prejuízos, entretanto, entender a ambiguidade de uma polêmica é obrigação de quem opina. Não há professor de ensino médio que não tenha aluno usuário de entorpecente; a maioria apenas condena. Faz bem ao mundo entender que indivíduos podem ser gays e não promíscuos ou podem ser usuários de maconha e absolutamente produtivos. Os dramas não devem ser cultivados, mas suavizados com esclarecimentos que ofereçam como bem maior “paz” entre as relações.


Quando o recipiente de um copo ultrapassa a borda, dizemos que ele transborda. Dia destes pedi um vinho em um bar. O garçom encheu a taça do fundo até a borda, um gesto que claramente depunha contra a sua profissão. E num é nem mania de enólogo, pois todos sabem que não apenas para se apreciar um bom vinho, mas até mesmo um copo de suco precisa manter certa distância da borda. A borda, portanto, é o limiar da qual é necessário se distanciar.

Uso desta metáfora para falar do quanto nossa paciência tem se aproximado da borda com algumas situações e pessoas. Há várias coisas que fazem nossa paciência transbordar.

Deixo aberto o espaço, se alguém quiser compartilhar algum transbordamento que tenha vivido, fique à vontade.

De minha parte vou deixar apenas um exemplo, além é claro, do vinho tinto servido gelado numa taça cheia pelo desavisado garçom. Vou citá-lo porque o vivenciei nesta semana.

“Não me arrependo de nada do que fiz”, ouvi de alguém. Aí está uma frase que me incomoda. Eu já errei tantas vezes como me arrependi, e sei que isto não é depreciativo, é algo inerente à nossa condição humana. Não se arrepender é acreditar que somos auto-suficientes e todas as escolhas que fazemos são acertadas. É partir do pressuposto que arrepender-se é para os fracos, que as pessoas revolucionárias e subversivas “chutam o balde” e não se arrependem nunca.

Não se arrepender de nada é no fundo, uma manifestação de soberba, de ensimesmamento. São atitudes desta natureza que fazem com que a paciência chegue à borda do copo rapidinho.


Uma das coisas mais bonita que vi nos últimos dias



Kafka falava um tcheco perfeito, talvez um pouquinho formal, mas escrevia em alemão. No entanto, não era alemão; era judeu.

Nem um único historiador da literatura tcheca jamais demonstrou suficiente generosidade, coragem ou amabilidade para relacioná-lo entre os autores tchecos.

Os contos de Kafka saíram em jornais alemães e foram publicados em Leipzig, isto é, aqueles que chegaram a aparecer. Porque esse gênio tinha dúvidas tão sérias a respeito de seus textos que preferiu não publicá-los; chegou até a exigir que tudo que ele escrevera fosse destruído após a sua morte.

A sensação de exclusão e solidão que brota repentinamente de seus textos em prosa certamente tinha origem em sua disposição de ânimo, nas circunstâncias de sua vida. Na verdade, era algo que ele tinha em comum com muitos de seus contemporâneos. Mas Praga intensificou isso de maneira marcante. Kafka ansiava por uma saída para tudo isso, tal como ansiava por uma saída para a sua solidão de solteiro. Não conseguiu encontrá-la. Era incapaz de libertar-se, a não ser por meio de seus textos.

Se tivesse conseguido libertar-se de alguma outra forma, provavelmente teria vivido mais, e em algum outro lugar, mas não teria escrito nada.

(Amor e lixo de Ivan Klima)

O que você escolheria? Uma vida ou uma obra? Se tivesse que escolher, escolheria produzir a obra-prima sob o custo de uma existência desafortunada ou um destino humano comum, mas venturoso? Quando perguntado sobre a receita para escrever tanto e de modo tão brilhante, Dostoiévski respondeu: o sofrimento. Parece-me que quase nunca esses dois eventos coincidem na vida de um artista.



O que leva alguém a ter uma atitude própria dos loucos? Se já tivestes fantasias de dar um rumo completamente diferente à sua vida, você não está sozinho. Muita gente já imaginou hipoteticamente imergir numa aventura no mínimo estranha à razão. Daquelas que embaralham o entendimento. Outros, não apenas imaginaram, transpuseram o campo da fantasia ao assumirem o risco de dar um rumo aparentemente absurdo às suas vidas.

Uma vez li uma entrevista do Leonardo Boff na Caros Amigos em que relatava uma experiência de tal natureza envolvendo seu irmão mais novo. O rapaz fora enviado pela família para estudar na suíça onde recebeu o título de Doutor ou pós-doutor se não me engano. Voltando para o Brasil teve uma atitude absurdamente inesperada: jogou o diploma em um rio em Curitiba e foi trabalhar como cobrador de ônibus. O que leva alguém tão capacitado a querer experimentar um trabalho tão pouco atraente?

Lembrei disso na leitura de “Amor e lixo”, romance do escritor judeu-tcheco Ivan Klima. O livro narra a história de um escritor que após ter seus originais recusados sistematicamente pelas editoras, se emprega como gari passando a viver como um varredor de rua em Praga. É verdade que a literatura joga com as possibilidades da existência e casos como estes se repetem causando perplexidades.

Na cidade onde vivi a infância havia um famoso mendigo cuja notoriedade residia em ter sido professor. Nunca soube ao certo o que o levara a tornar-se mendigo, o fato é que era o mendigo mais Cult e de linguagem mais polida que havia visto naquelas cercanias.

Outro dia um amigo carioca me contou num bar sobre o estranho caso de um indivíduo que passou em primeiro lugar num concurso da Receita Federal no Rio e foi reprovado no psicotécnico ficando de fora. Segundo meu amigo este indivíduo, todos os dias, às sete da manhã estava lá na Receita, de terno e gravata, assessorando e dando suporte às pessoas que procuravam o órgão governamental, e sem qualquer tipo de remuneração. Estranho, não?

A impressão que tenho é que parece chegar um momento na vida em que somos tomados pelo desejo de termos uma visão inesperada do mundo; ver o mundo de outro patamar. Tenho sido assediado por isso já ha algum tempo. Meu enfrentamento se dá no embate de mitigar minha miséria de uma cosmovisão inovadora como condição para que minha mente não entre em colapso. Minhas poucas leituras e talvez ainda mais, meu envolvimento com a música, de certo modo, tem me protegido contra aquilo que a psicanálise chama de desejo latente.
A personagem do Romance Amor e lixo toca numa questão nelvrágica para mim:
“De vez em quando, a gente sente que, a não ser que encare o mundo e as pessoas sob um ângulo novo, a mente vai ficar embotada”.

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