
O que leva alguém a ter uma atitude própria dos loucos? Se já tivestes fantasias de dar um rumo completamente diferente à sua vida, você não está sozinho. Muita gente já imaginou hipoteticamente imergir numa aventura no mínimo estranha à razão. Daquelas que embaralham o entendimento. Outros, não apenas imaginaram, transpuseram o campo da fantasia ao assumirem o risco de dar um rumo aparentemente absurdo às suas vidas.
Uma vez li uma entrevista do Leonardo Boff na Caros Amigos em que relatava uma experiência de tal natureza envolvendo seu irmão mais novo. O rapaz fora enviado pela família para estudar na suíça onde recebeu o título de Doutor ou pós-doutor se não me engano. Voltando para o Brasil teve uma atitude absurdamente inesperada: jogou o diploma em um rio em Curitiba e foi trabalhar como cobrador de ônibus. O que leva alguém tão capacitado a querer experimentar um trabalho tão pouco atraente?
Lembrei disso na leitura de “Amor e lixo”, romance do escritor judeu-tcheco Ivan Klima. O livro narra a história de um escritor que após ter seus originais recusados sistematicamente pelas editoras, se emprega como gari passando a viver como um varredor de rua em Praga. É verdade que a literatura joga com as possibilidades da existência e casos como estes se repetem causando perplexidades.
Na cidade onde vivi a infância havia um famoso mendigo cuja notoriedade residia em ter sido professor. Nunca soube ao certo o que o levara a tornar-se mendigo, o fato é que era o mendigo mais Cult e de linguagem mais polida que havia visto naquelas cercanias.
Outro dia um amigo carioca me contou num bar sobre o estranho caso de um indivíduo que passou em primeiro lugar num concurso da Receita Federal no Rio e foi reprovado no psicotécnico ficando de fora. Segundo meu amigo este indivíduo, todos os dias, às sete da manhã estava lá na Receita, de terno e gravata, assessorando e dando suporte às pessoas que procuravam o órgão governamental, e sem qualquer tipo de remuneração. Estranho, não?
A impressão que tenho é que parece chegar um momento na vida em que somos tomados pelo desejo de termos uma visão inesperada do mundo; ver o mundo de outro patamar. Tenho sido assediado por isso já ha algum tempo. Meu enfrentamento se dá no embate de mitigar minha miséria de uma cosmovisão inovadora como condição para que minha mente não entre em colapso. Minhas poucas leituras e talvez ainda mais, meu envolvimento com a música, de certo modo, tem me protegido contra aquilo que a psicanálise chama de desejo latente.
A personagem do Romance Amor e lixo toca numa questão nelvrágica para mim:
“De vez em quando, a gente sente que, a não ser que encare o mundo e as pessoas sob um ângulo novo, a mente vai ficar embotada”.
11 comentários:
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Gostei de sua reflexão. Realmente o ser humano é uma caixa de Pandora.
abraços
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Dentro da escola, por exemplo, a gente está sempre dizendo: faça, queira, estude, não perca tempo.. Mtos imperativos que omitem discursos. Isso cansa, não cansa? Dar a cara a tapa todos os dias ainda que você acorde introspecto (a)e silencioso (a) faz de você frágil, suscetível a mais medos. Por isso afirmo que com um salário razoável, eu faria a maioria das atividades que a vida viesse a me sugerir: tudo cansa, tudo limita e ao mesmo tempo, é o tudo que te enche de experiência e sabedoria.
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Bom, me parece que as pessoas citadas no texto são dotadas de grande inteligência cognitiva, mas lhes faltou a inteligência emocional (que ainda é muito ignorada ou vista como menos importante). Por outro lado há casos em que as pessoas descobriram seu verdadeiro talento e o colocaram em prática brilhantemente e independente do que seja ou do grau de status que a profissão possa ter, sentem-se plenos com seu trabalho. Acho que nos casos citados faltou equilíbrio. Canta o Ney na música "ser feliz ou não questão de talento".
Será que eles se sentiram/sentem plenos com a escolha?
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Já o caso do rapaz da Receita Federal... Tomara que ele tenha feito outro concurso e passado no psicotécnico. Acho que ele sabia o que queria...
Tenho uma amiga que largou o emprego sendo concursada para ser escritora, está vivendo de migalhas com o que escreve. Apesar de não ter dinheiro nem para o ônibus e estar devendo na padaria, é perceptível em seu semblante a alegria de estar lutando pelo que se quer. Ela sabe que precisa amadurecer, que o caminho ainda é longo. Mas como dizem, a alegria está no caminho e não na chegada!
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Brilhante Reflexão!
É complicado afirmar que "faltou equilíbrio" ou simplesmente dizer é isso. As vezes as razões estão em outros lugares mesmos, até no anseio de "uma nova visão de mundo e das pessoas" como coloca sabiamente o texto acima. De qualquer modo estes casos são exemplares do quanto o ser humano é um ser imprevisível e inacabado.
há braços
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Obrigado pelas leituras e observações.
Ainda não conclui o romance sobre o escritor que virou gari. Os casos reais por outro lado, acredito que continuam desafiando o entendimento leigo. Talvez um profissional do campo dos estudos do comportamento humano psico-social poderia fazer esclarecimentos maiores.
abs
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É um pouco complicado afirmar que falta equilíbrio, concordo, até porque eu desconheço a continuação das histórias. Mas veja o caso do mano do Boff, chegou até lá, talvez tenha se desiludido e jogou tudo fora. Fico pensando: será que não havia nada de bom? Será que não podia usar o que apendeu em favor de algo maior? Enfim, me falta saber mais. Não sei se consigo me fazer entender, mas o Vinícius de Moraes por exemplo, começou com a música erudita e terminou na popular, enriqueceu-se com as duas visões, ajudou a transformar a música popular brasileira nessa beleza que é hoje. Acho muito válido ter coragem ousar, principalmente se o cara for forte o suficiente para voltar, se é que me entende. Somos inacabados, por isso mesmo buscamos, ou devemos buscar a evolução.
Záia, to curiosa. Depois que o escritou virou gari, ele virou escritor novamente e contou sua história. Estou muito interessada nessa próxima parte. Ir e voltar mais forte, evoluir.
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Tá certo, o mano do Boff buscou algo completamente diferente, o outro lado. To pirando(demorando) ainda...
Mas professor virar mendigo, fica basicamente no mesmo lado da moeda hahaha
(piadinha de greve)
abraço


Olá
Post divulgado no Teia.
Até mais