Kafka falava um tcheco perfeito, talvez um pouquinho formal, mas escrevia em alemão. No entanto, não era alemão; era judeu.

Nem um único historiador da literatura tcheca jamais demonstrou suficiente generosidade, coragem ou amabilidade para relacioná-lo entre os autores tchecos.

Os contos de Kafka saíram em jornais alemães e foram publicados em Leipzig, isto é, aqueles que chegaram a aparecer. Porque esse gênio tinha dúvidas tão sérias a respeito de seus textos que preferiu não publicá-los; chegou até a exigir que tudo que ele escrevera fosse destruído após a sua morte.

A sensação de exclusão e solidão que brota repentinamente de seus textos em prosa certamente tinha origem em sua disposição de ânimo, nas circunstâncias de sua vida. Na verdade, era algo que ele tinha em comum com muitos de seus contemporâneos. Mas Praga intensificou isso de maneira marcante. Kafka ansiava por uma saída para tudo isso, tal como ansiava por uma saída para a sua solidão de solteiro. Não conseguiu encontrá-la. Era incapaz de libertar-se, a não ser por meio de seus textos.

Se tivesse conseguido libertar-se de alguma outra forma, provavelmente teria vivido mais, e em algum outro lugar, mas não teria escrito nada.

(Amor e lixo de Ivan Klima)

O que você escolheria? Uma vida ou uma obra? Se tivesse que escolher, escolheria produzir a obra-prima sob o custo de uma existência desafortunada ou um destino humano comum, mas venturoso? Quando perguntado sobre a receita para escrever tanto e de modo tão brilhante, Dostoiévski respondeu: o sofrimento. Parece-me que quase nunca esses dois eventos coincidem na vida de um artista.

8 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.
  1. Grande pergunta!
    Eu quero uma vida comum, algumas experiências que também ampliem minha visão de mundo. Mas não poderá me faltar a alegria, paz e o amor. Não me importo em não ser lembrada após a minha morte, quero viver em paz durante a minha vida. É o melhor que posso fazer pela humanidade.
    O sofrimento não me traria a genialidade, conheço meus limites. A muitos que conseguiram, sou grata!

  1. Eu prefiro a vida!! Mas, às vezes, quando temos algo (ou muito, como queiram) a dizer, e é importante, vai saber que impulsos profundos movem o interior do ser, né?
    Achei legal identificar-me um pouco aqui, nao com o genio, é claro, mas por já ter vivido em Leipzig, conhecer a Tchequia e falar alemao (aos trancos e barrancos, haha).
    Gostei mesmo de saber mais sobre o Kafka!!!

    Beijao!!!!!

  1. Anônimo says:

    Olá, Záia!
    Aqui é a Soninha, sua aluna do ano passado.
    Eu sempre acompanho seu blog. Gosto das suas reflexões. Mas, tendo lido essa postagem sobre o Kafka, me senti movida a vir aqui deixar um comentário. As escolhas que as pessoas tomam são um grande objeto de estudo (aqui entrando também o seu post anterior, sobre o gari) e eu cursando Letras, estávamos analisando em aula, justamente isso, até onde o autor vai por sua obra? Qual o sentimento contido dentro dele para escrever cada uma daquelas palavras e daquela forma? E de como, às vezes o autor escreve algo que para o leitor toma uma interpretação bem diferente. Até foi citado o caso da Clarice Lispector que adorava ler as críticas que um senhor (que agora me foge o nome) escrevia dos livros dela, porque nem ela sabia que tinha escrito aquilo.
    Enfim, queria aproveitar para parabenizá-lo pelos seus escritos.

  1. Záia says:

    Jaci, acho que concordo com sua resposta, me identifico com ela, mas acho que o sofrimento em si não trás genialidade porém ele funciona como fertilizante para quem é genial.

    Geyme obrigado pelo comentário e fico feliz que tenha se sentido em casa, você que também é escritora!

    Soninha minha querida ex-aluna fico muito feliz que tenha frequentado este espaço (mesmo anonimamente.hehe). Fico feliz que esteja cursando letras e que as problematizações entre autor e obra tenha feito parte de suas reflexões. Sobre a Clarice, é realmente muito curioso isto.

    bjs

  1. Blog Teia says:

    Olá Zaia.
    Já publiquei esse post no blog Teia .
    Até mais

  1. É isso que eu quero dizer com "meus limites".

  1. Toda vez que leio Kafka chego à conclusão de que ele é o único que entendeu o mundo contemporâneo...

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